art residency (Finland)

AONDE VOCÊ VAI, NEM ANOITECE
[ WHERE YOU’RE GOING, IT DOESN’T EVEN GET DARK ]
Arteles Creative Center
Finlândia
2016

O SOL INTERIOR
[ The Inner Sun ]

O MAR QUE VEM COM A GENTE AO NASCER

[ The sea that comes with us when we’re born ]

AONDE VOCÊ VAI, NEM ANOITECE

[ Where you’re going, it doesn’t even get dark ]

EU ESTIVE AQUI

[ I Was Here ]

CONTATOS IMEDIATOS

[ Close Encounters ]

AONDE VOCÊ VAI, NEM ANOITECE
por Mariana Leal

Em junho de 2016 participei de uma residência artística na Finlândia. Era verão no hemisfério norte… e não ficava de noite.

Havia campos, lagos e uma floresta ao redor do centro criativo. Lá trabalhei combinando elementos visuais referentes à natureza daquela região com formas e figuras que são recorrentes em meu trabalho.

As obras que criei refletem a singularidade daquela experiência cotidiana e, como sempre, a relação entre “lado de dentro” e “lado de fora” e a idéia de acesso a dimensões psico-emocionais. Os trabalhos também remetem – de forma simbólica e sutil – a situações aparentemente simples, porém vivenciadas com grande intensidade interior.

Os cômodos da casa funcionaram para mim não apenas como locais de moradia e criação, mas também como partes de algumas obras. Sobre o portal do quarto onde eu dormia realizei a pintura de um grande torso, de modo que a porta se tornou uma abertura no centro daquela enorme silhueta humana. Lá dentro brinquei com as luzes das luminárias redondas que decoravam o quarto. Nasceu assim a instalação ‘O Sol interior’ – obra site-specific que resultou em uma animação feita a partir de fotos da instalação.

“Aonde você vai nem anoitece” – escreveu uma amiga carinhosamente pelo WhatsApp, ao saber que eu estava na terra do sol da meia-noite. A mensagem deu origem a um pequeno desenho sobre papel. Nele, as palavras antes restritas ao ambiente virtual são apresentado “ao ar livre" – escritas numa placa, com letra de mão – num jogo entre o espaço pessoal e o mundo exterior.

Trabalhei também com meus ‘desenhos emplumados’ – os desenhos que costumo rabiscar de modo distraído e automático em papéis e cadernos que estejam à mão. Essas formas gráficas “me acompanham” aonde quer que eu vá (porque vêm de dentro) e pode-se dizer que funcionam como assinaturas energéticas em meus trabalhos. Durante a viagem deixei esses desenhos acontecerem sobre fotografias impressas dos lugares que eu visitava para – num sentido poético – deixar marcas nas paisagens ao estilo “Eu estive aqui” e também para conferir visualidade à comitiva de forças imateriais que chegaram comigo àquelas terras.

No estúdio, as janelas tinham vista para um lago. Ali trabalhei em contato visual com a paisagem, criando “O mar que vem com a gente ao nascer” – obra transitória, que foi pintada diretamente sobre a parede e que por isso duraria apenas o tempo em que eu permanecesse na casa como artista residente. As estruturas desenhadas neste trabalho foram traçadas quase que meditativamente ao longo dos dias, para então serem abruptamente apagadas ao final da execução. As linhas cobertas por pequenos círculos lembram fios bordados a pérolas e, no espaço do trabalho, interagem com os fluxos d’água que pintei vigorosamente – numa referência simbólica ao fluxo de emoções e às preciosidades escondidas nas profundezas de um mar pessoal: o inconsciente.

Durante a viagem iniciei vários outros desenhos e pinturas sobre papel, nos quais faço alusão aos seres que chamo de ‘Povo Pássaro’ e ao ato de viajar a outras terras e dimensões, trazendo à luz do sol (ou da consciência) aquilo se encontra na escuridão.