AUTOMATISMO

  • Type AUTOMATISM

OS CUBOS EMPLUMADOS
[ THE FEATHERED CUBES ]

OS CUBOS EMPLUMADOS
por Mariana Leal

São desenhos que eu deixo a mão fazer… enquanto penso em outras coisas, enquanto falo ao telefone… enquanto não penso em nada… enquanto sinto.

Nascem dos fluidos das canetas e do carbono dos lápis sobre as bordas dos papéis onde escrevo, sobre as notas fiscais… sobre textos, listas e livros, sobre a pele de amigos – superfícies de pouso onde eu danço com a mão sem prestar atenção.

O termo ”emplumado” peguei emprestado das serpentes aladas que vi desenhadas em ruínas no México – antigos deuses adorados pelos povos meso-americanos.

Meu botão de traçado automático empluma as coisas que a mão desenha… e desenha cubos – talvez para atender aos pedidos em meu interior por vôos e também por base, estabilidade.

Faço cubos divindades – tentativas de ascensão das energias do chão.

Faço blocos incolores, ensaiando a construção de uma civilização íntima e translúcida – fluida como a água, curativa como o quartzo, invisível como vidro.

Faço barras de ouro-amigo: luz condensada aterrissando… e chegando às mãos dos homens em missão de paz.

Cubos naves espaciais: naves-mães chocando ninhos… quentinhos.
Universos dando a luz a caixas de presente, transparentes.
Incubadoras preparando cores vivas para a Mãe Terra.

Faço caudas abertas em leque…
e olhos abertos em penas.
Faço antenas emplumando cabeças como coroas.
Misteriosa côrte de pavões e geometrias não-sagradas.

Cubos encantados…
Chegando às dezenas… centenas…
Passando em revoada pelas roupas penduradas.
Desejando estampar a pele dos objetos do dia-a-dia, para assim poderem, enfim, conviver com as pessoas…
cochichar coisas em seus ouvidos,
ou recostar em ombros amigos, ajudando a carregar seus pesos.

Cubos emplumados
Sonhando usar o centro de algum peito
como pista de pouso ou abastecimento.
Ilustrando livros feitos de um papel viçoso.
Abrindo as paredes deste mundo ao novo,
a uma outra dimensão.

Por gratidão.